Novas leis de sustentabilidade impactam ativos comerciais
Tendências ESG agora passam a ser regra do jogo, impactando a ocupação dos ativos e a visão dos investidores
Para quem acreditava que as tendências de ESG eram apenas uma moda passageira, há novidades importantes. O avanço das regulamentações vem consolidando um novo padrão de mercado, no qual empresas com boa governança, transparência e práticas sustentáveis passam a ser favorecidas, enquanto gestões frágeis ou inconsistentes enfrentam maior escrutinio.
Esse movimento também vem estreitando o funil regulatório. A cada ano surgem novas normas voltadas a monitorar, padronizar e mensurar as ações de sustentabilidade corporativa. O objetivo é aumentar a transparência e coibir práticas de greenwashing, quando empresas promovem discursos ambientais ou sociais que não se refletem em suas práticas reais.
Na prática, o mercado caminha para um ambiente em que sustentabilidade deixa de ser apenas narrativa de marca e passa a ser um critério cada vez mais verificável, comparável e, sobretudo, regulado. Em entrevista ao Resource, os sócios da Straub Junqueira, Luiza Junqueira e Eduardo Straub, explicam como as novas exigências regulatórias estão mudando a forma como empresas e investidores analisam ativos imobiliários.

Eduardo Straub, sócio da Straub Junqueira
Sustentabilidade deixa de ser marketing e vira obrigação
Segundo Luiza Junqueira, uma das mudanças mais relevantes é a obrigatoriedade crescente de relatórios de sustentabilidade, que passa a exigir dados concretos das empresas, e não apenas discursos institucionais.
Métricas como intensidade energética, emissões de carbono, consumo de água, eficiência operacional e resiliência dos ativos começam a ser monitoradas de forma estruturada e reportadas ao mercado.
"Isso força o mercado imobiliário a olhar para essas questões com mais profundidade. Não basta mais falar de sustentabilidade ou apresentar certificações. Agora é preciso medir e reportar dados reais", explica Junqueira.
Outro ponto importante é que as exigências não se limitam apenas às grandes empresas ou companhias abertas. Cadeias corporativas inteiras passam a ser impactadas, incluindo subsidiárias e parceiros comerciais.
ESG como mitigação de risco para investidores
Para Eduardo Straub, o ESG também tem se consolidado como uma ferramenta importante de gestão de risco para investidores e stakeholders. Segundo ele, empresas que adotam estratégias consistentes de sustentabilidade tendem a demonstrar maior capacidade de adaptação a mudanças regulatórias, ambientais e econômicas.
"Quando investidores analisam uma empresa que leva ESG a sério, eles enxergam uma organização que está olhando para o longo prazo, que não busca apenas lucro imediato, mas trabalha pela sua perenidade", afirma Straub.
Essa visão também influencia decisões de investimento no mercado imobiliário, onde a análise do ativo começa a ir além de fatores tradicionais como localização ou valor de aluguel.
Retrofit e risco de obsolescência dos ativos
A nova onda regulatória também coloca pressão sobre edifícios existentes, especialmente aqueles construídos antes da consolidação das práticas de sustentabilidade.
Nesse contexto, o retrofit, atualização de ativos antigos para padrões mais eficientes, ganha protagonismo.
Segundo Junqueira, ativos que não acompanham essa evolução podem enfrentar riscos crescentes de obsolescência.
"O mercado começa a discutir conceitos como green premium e brown discount. Ou seja, ativos sustentáveis podem ganhar valor adicional, enquanto ativos ineficientes podem sofrer desvalorização", explica.
Esse movimento já é comum em mercados mais maduros, especialmente na Europa, e começa a aparecer gradualmente no Brasil, sobretudo em grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Certificações ganham peso nas decisões de ocupação
Outro elemento que vem ganhando importância é o papel das certificações ambientais. Além de funcionarem como um selo de qualidade, elas ajudam a padronizar a comunicação sobre desempenho ambiental dos edifícios.
Na prática, muitas empresas, especialmente multinacionais, já possuem diretrizes internas que limitam a ocupação a edifícios certificados. Straub relata que já presenciou situações em que empreendimentos perderam locatários justamente por não possuírem certificação ambiental.
"Às vezes o edifício é competitivo em vários aspectos, mas sem certificação ele deixa de atender critérios internos de determinadas empresas".
Bem-estar, biofilia e produtividade
Além da eficiência energética e hídrica, outras dimensões da sustentabilidade também começam a ganhar espaço no mercado imobiliário corporativo. Entre elas estão estratégias ligadas ao bem-estar dos usuários, como iluminação natural, ventilação adequada, presença de áreas verdes e elementos de biofilia.
Segundo Straub, ambientes mais saudáveis podem impactar diretamente indicadores corporativos como produtividade, satisfação dos colaboradores e redução de turnover. "Quando as pessoas se sentem bem no ambiente de trabalho, isso influencia humor, desempenho e até indicadores como absenteísmo e sinistralidade de plano de saúde". Esses fatores, apesar de muitas vezes intangíveis, começam a ser incorporados às métricas exigidas por novas regulamentações de sustentabilidade.
Mercado brasileiro ainda está no início da transição
Apesar dos avanços regulatórios, o nível de adoção de práticas sustentáveis no mercado imobiliário brasileiro ainda é relativamente baixo. Segundo Junqueira, estimativas indicam que apenas cerca de 16% do setor de construção no país está efetivamente engajado no tema.
No entanto, o cenário pode mudar rapidamente. A combinação de novas normas, pressão de investidores, exigências de multinacionais e evolução das políticas climáticas tende a acelerar a transformação do setor.
"O ESG saiu definitivamente do campo do marketing. Agora ele passa a fazer parte dos relatórios financeiros e das métricas de desempenho das empresas".